Auxiliares do presidente avaliam que comunicado liderado por Washington amplia a pauta de segurança para temas econômicos e minerais críticos.
O governo Luiz Inácio Lula da Silva avalia que a ação coordenada pelos Estados Unidos e outros países das Américas contra facções criminosas pode servir para ampliar a influência de Washington na região. A leitura foi relatada à BBC News Brasil por um auxiliar do presidente, em caráter reservado, após a divulgação de um comunicado do grupo Escudo das Américas, na terça-feira (22).
O documento prevê sanções contra 24 organizações criminosas, entre elas o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). O Brasil não integra o grupo e, segundo diplomatas ouvidos pela BBC, representantes brasileiros só souberam do texto depois de sua publicação.
O que prevê o comunicado
A iniciativa reúne os Estados Unidos e outros 14 países do continente. Os signatários se comprometem a adotar medidas conjuntas contra o crime organizado, como congelamento de ativos de grupos ou lideranças, controles migratórios contra pessoas supostamente ligadas às facções e processos contra quem ofereça apoio financeiro ou logístico.
Números mencionados na reportagem da BBC News Brasil.
- 24Organizações visadasinclui PCC e CV
- 15Países no grupoEstados Unidos e outros 14
- 1948Criação do TiarTratado Interamericano de Assistência Mútua
- 90%Mercado de terras rarasconcentrado na China
O texto também prevê uma consulta à Organização dos Estados Americanos (OEA), da qual o Brasil faz parte, sobre a possível reativação do Tratado Interamericano de Assistência Mútua (Tiar). Criado em 1948, o acordo estabelece que um ataque a um país do bloco pode ser considerado um ataque a toda a região.
Segurança, economia e minerais
Para o auxiliar de Lula ouvido pela BBC, o alcance do comunicado vai além do enfrentamento às facções. O texto trata ainda de cooperação econômica, triagem de investimentos e proteção de cadeias de suprimento de minerais críticos por fontes consideradas diversificadas e confiáveis.
A referência aos minerais chamou a atenção do governo brasileiro porque os Estados Unidos buscam reduzir a dependência da China nesse mercado. Segundo a BBC, a China concentra 90% do mercado mundial de terras raras, usadas em produtos como turbinas eólicas, carros elétricos, aviões de guerra e mísseis.
Em agosto, uma empresa norte-americana comprou, com apoio do governo dos EUA, a mineradora Serra Verde, em Minaçu (GO), segundo a reportagem. A empresa opera uma mina de terras raras em escala comercial fora da Ásia e produz quatro dos principais elementos usados na indústria de ímãs permanentes.
Declaração de Trump aumenta preocupação
No dia do anúncio, o presidente Donald Trump afirmou na Assembleia Geral da ONU que os Estados Unidos poderiam usar seu poderio militar para defender interesses no Hemisfério Ocidental. Ele citou ações americanas na Venezuela como sinal de que o país não permitiria que ameaças avançassem na região.
Na avaliação do auxiliar palaciano, vincular assuntos econômicos e estratégicos à lógica de segurança nacional cria espaço para que interesses dos EUA sejam tratados sob esse argumento. Essa é a razão da metáfora do “cavalo de Troia” usada por ele para descrever a iniciativa.
Com informações de bbc.com.
Foto de capa: Daniel Torok/Wikimedia Commons (Public domain)
