Nova obra da dupla britânica combina câmeras ao vivo, chroma key e uma entrevista política encenada.
A dupla de coreógrafos Jessica Wright e Morgann Runacre-Temple, conhecida como Jess e Morgs, prepara Deepfake, espetáculo de dança que discute os efeitos das imagens manipuladas sobre a percepção da verdade. A obra se passa em um estúdio de chroma key e encena uma entrevista entre uma jornalista e um político.
A montagem usa a dinâmica de entrevistas televisivas de alta tensão para explorar tanto a credulidade diante de conteúdos falsos quanto a possibilidade de imagens verdadeiras serem desacreditadas. Segundo os artistas, a proposta é mostrar as versões simultâneas de uma mesma cena e expor como elas são construídas.
Entrevista filmada em tempo real
No palco, a conversa entre os dois personagens será registrada por quatro câmeras ao vivo. O público verá a ação presencial e, em uma tela, outra versão da cena, com imagens de fundo inseridas na edição.
A montagem reúne tecnologia de palco e referências da televisão.
- quatroCâmeras ao vivofilmam a cena
- seteDançarinos em chroma keymanipulam o ambiente
- 2022Coppéliaobra anterior da dupla
O trabalho terá ainda sete dançarinos em roupas próprias para chroma key. Eles manipularão o ambiente cênico, mas desaparecerão na imagem editada, reforçando o contraste entre a ação real e o resultado exibido na tela.
A jornalista será interpretada por Rebecca Bassett-Graham, dançarina conhecida pelo trabalho com a companhia de Wayne McGregor. Kennedy Junior Muntanga, que já trabalhou com Akram Khan, interpreta o político.
Referências de entrevistas na TV
Jess e Morgs desenvolveram o espetáculo com o escritor Jeff James. Para criar a cena, eles analisaram entrevistas televisivas, entre elas a conversa de Jeremy Paxman com Michael Howard, em 1997, e a participação do ex-príncipe Andrew no programa Newsnight.
A coreografia acompanha a fala em voz over e traduz corporalmente conflitos de uma entrevista: persuasão, pressão, colaboração, acusação e encurralamento. De acordo com Wright, os intérpretes precisam acertar marcas e direções do olhar em momentos exatos nas cenas com chroma key para que a ilusão funcione.
Tecnologia e dúvida sobre o que é real
Para Runacre-Temple, o chroma key tem uma aparência mais simples e lúdica quando comparado aos deepfakes produzidos por inteligência artificial. A preocupação central da obra, segundo ela, não é apenas o risco de pessoas acreditarem em uma imagem falsa, mas também o de passarem a duvidar de imagens verdadeiras.
A dupla já abordou tecnologia e inteligência artificial em Coppélia, criado para o Scottish Ballet em 2022. A produção transformou o balé do século 19 em uma história sobre autômatos de IA e ambições do setor de tecnologia.
O que o espetáculo propõe
Deepfake não antecipa se haverá um vencedor no embate entre a jornalista e o político. A intenção declarada por Jess e Morgs é fazer uma obra surpreendente e provocadora, centrada na relação instável entre imagem, narrativa e verdade.
Com informações de theguardian.com.
Foto de capa: Scottish Government/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)
