Livro de pesquisadores do MIT aponta usos para trânsito, emissões e espaços públicos, além de riscos à privacidade e a vieses.
Pesquisadores do MIT defendem que a inteligência artificial visual pode ampliar a análise de cidades ao processar imagens de câmeras, celulares e outras fontes para estudar trânsito, emissões, áreas verdes e uso de espaços públicos. As possibilidades e os riscos da tecnologia são discutidos no livro “How AI Sees the City: Urban Visual Intelligence”, lançado neste mês pela Routledge.
A obra foi escrita por Fábio Duarte, Martina Mazzarello, Carlo Ratti e Fan Zhang, ligados ao MIT Senseable City Lab e à Universidade de Pequim. Segundo os autores, a técnica permite transformar imagens em dados em escala muito maior do que a observação urbana tradicional, mas exige atenção à privacidade, à vigilância constante e aos vieses dos sistemas.
Aplicações para o planejamento urbano
Em estudo recente sobre poluição em Nova York, pesquisadores do laboratório usaram aprendizado de máquina para reconhecer os tipos de veículos captados por 331 câmeras de trânsito e estimar as emissões de cada automóvel. De acordo com o MIT, uma rede maior de equipamentos poderia monitorar emissões com precisão e abrangência inéditas.
A IA visual também pode ajudar a identificar os motivos de congestionamentos, avaliar riscos em cruzamentos e observar quais trechos de praças e parques recebem mais pessoas. Para os autores, imagens de ruas podem complementar dados de satélite sobre arborização ao mostrar quanto verde os moradores efetivamente enxergam no cotidiano.
O método pode alcançar ambientes internos. Uma pesquisa do Senseable City Lab analisou imagens de 400 mil anúncios do Airbnb no mundo e concluiu que os estilos de decoração ainda apresentam diferenças geográficas relevantes, em vez de uma homogeneização global.
Monitoramento e privacidade
O livro alerta que o aumento de câmeras pode ampliar a capacidade de acompanhamento das cidades, mas também reduzir a liberdade individual e abrir espaço para abusos. Os autores defendem que eventuais ganhos de segurança sejam avaliados diante dos efeitos de um sistema de monitoramento permanente.
O material cita Londres, que tem cerca de 210 câmeras por milha quadrada, e Xangai, com mais de 5 mil câmeras por milha quadrada. Oito das dez cidades com maior concentração de câmeras do mundo estão na China, segundo os pesquisadores.
Risco de reproduzir vieses
Outro ponto levantado é que sistemas treinados majoritariamente com dados de determinados grupos podem interpretar de forma desigual pessoas, bairros e cidades. Para Fábio Duarte, a IA não é neutra porque incorpora elementos da cultura e das bases usadas em seu treinamento.
Os pesquisadores situam a IA visual como continuidade de estudos urbanos baseados na observação, como os de Kevin Lynch e William H. Whyte. A diferença, segundo eles, é a escala: ferramentas computacionais podem analisar milhões de imagens, desde que seu uso seja orientado por critérios adequados.
O que muda para o planejamento
A proposta dos autores é usar a tecnologia como instrumento para urbanistas, gestores públicos e cidadãos, e não como substituta da análise humana. O livro defende que dados visuais possam apoiar decisões sobre mobilidade, ambiente urbano e espaços coletivos, com salvaguardas contra vigilância invasiva e discriminação algorítmica.
Com informações de news.mit.edu.
Foto de capa: Fcb981, this edited version by Thermos/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
