Jairo Nicolau atribui projeção ao desânimo de parte do eleitorado e à facilidade para justificar a ausência.
A abstenção nas eleições de 2026 pode superar os níveis registrados nas últimas décadas, na avaliação do cientista político Jairo Nicolau, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV). A uma semana do pleito, ele também prevê crescimento dos votos brancos e, sobretudo, dos nulos.
Em entrevista à BBC News Brasil, Nicolau relacionou a projeção ao desânimo com os candidatos e à repetição da polarização entre petismo e bolsonarismo. Para ele, o debate eleitoral perdeu espaço nas últimas semanas em meio à crise no Supremo Tribunal Federal (STF).
O que explica a abstenção
O cientista político afirmou que a ausência nas urnas não tem uma causa única. Entre os fatores estão os eleitores com mais de 70 anos, para os quais o voto é facultativo, pessoas que mudaram de cidade sem transferir o título e impedimentos no próprio dia da votação, como doença ou trabalho.
Há também quem decida não votar por rejeição à disputa política. Nicolau disse que não há pesquisas ou estimativas capazes de medir quantos dos ausentes adotam deliberadamente essa posição, mas avaliou que esse grupo pode crescer neste ano.
Recorde de 2022 é referência
No primeiro turno de 2022, 32 milhões de pessoas não votaram, recorde de abstenção, segundo a BBC News Brasil. No livro O país dividido, lançado em junho pela editora Zahar, Nicolau analisou o perfil de quem deixou de comparecer às urnas nas seis eleições presidenciais realizadas entre 2002 e 2022.
Dados e projeção citados por Jairo Nicolau
- 2002Início da análisesérie de eleições presidenciais
- 2022Abstenção recorde32 milhões no primeiro turno
- 2026Projeção do pesquisadorpossível nova alta
Segundo ele, a abstenção não é distribuída de maneira uniforme entre os grupos de eleitores. Mulheres tendem a comparecer mais, enquanto pessoas com menor escolaridade comparecem menos, afirmou o pesquisador.
Efeito do e-Título e da multa
Nicolau avalia que o custo de não votar se tornou menor com a possibilidade de justificar a ausência pelo e-Título e com as consequências limitadas para quem não está em dia com a Justiça Eleitoral. Na visão dele, o país caminha, na prática, para uma espécie de voto facultativo não declarado.
O professor citou R$ 120 como um exemplo de valor de multa que, em sua avaliação, poderia tornar a obrigatoriedade mais efetiva. O montante foi mencionado como hipótese, e não como uma mudança prevista na legislação.
O que está em jogo no pleito
Para Nicolau, parte dos eleitores de centro e de classe média busca uma opção mais moderada e pode se afastar da votação diante do cenário atual. Ele classificou a disputa como uma espécie de “terceiro turno” das eleições de 2022.
A previsão de alta da abstenção e de votos inválidos é uma análise do cientista político. Os números oficiais do pleito só serão conhecidos após a votação e a apuração pela Justiça Eleitoral.
Com informações de bbc.com.
Foto de capa: Daniel Costa Rossetti/Wikimedia Commons (Public domain)
