Especialistas citam falhas na memória prospectiva e mudanças de rotina como fatores que podem levar ao problema.
Uma falha involuntária de memória pode fazer com que pais ou responsáveis esqueçam uma criança no carro, mesmo quando são dedicados aos filhos, segundo especialistas ouvidos pela reportagem. O fenômeno, chamado de Síndrome do Bebê Esquecido, está associado à memória prospectiva — a capacidade de lembrar uma ação que ainda precisa ser realizada.
O risco é agravado pela rápida elevação da temperatura no veículo. Com 30°C do lado de fora e sol direto, o interior de um carro pode passar de 40°C em dez minutos e ultrapassar 50°C depois de uma hora, de acordo com o pediatra Nibras Naami, do Centro Infantil de Hematologia do Oeste da Alemanha.
Como a memória pode falhar
O psicólogo David Diamond, que estuda o tema há décadas, afirma que alterações na rotina podem prejudicar a memória prospectiva. No caso analisado por ele, uma mãe nos Estados Unidos havia dormido pouco, enfrentava uma crise familiar e não tinha no banco dianteiro a bolsa do bebê, que costumava funcionar como lembrete visual.
Diamond lista fatores que podem favorecer esse tipo de esquecimento:
- privação de sono;
- estresse crônico ou agudo;
- distrações;
- execução simultânea de muitas tarefas;
- falta de lembretes visuais;
- rotinas feitas no piloto automático.
A psicóloga e psicoterapeuta Rüya-Daniela Kocalevent afirma que o excesso de tensão compromete a ação racional. Nessas circunstâncias, segundo ela, a pessoa pode recorrer a comportamentos automáticos e deixar de cumprir o que havia planejado.
Casos exigem avaliação individual
Naami ressalta que há situações de negligência, mas diz que essa explicação não abrange todos os episódios registrados. Para diferenciar uma falha de memória de uma exposição deliberada ao risco, psicólogos analisam o comportamento anterior, o histórico de aprendizagem e a biografia dos responsáveis, segundo Kocalevent.
A eventual responsabilização criminal cabe aos tribunais. No caso citado por Diamond, não ficou comprovado que a mãe pretendia causar mal ao filho; a análise apontou que ela acreditava, de forma equivocada, que a criança estava sob os cuidados habituais de uma babá.
Alertas e lembretes disponíveis
Desde 2019, a Itália exige cadeirinhas com alarme integrado para crianças de até quatro anos. O sistema envia uma notificação ao celular caso a criança permaneça no veículo. Na Alemanha, não há uma regra semelhante, embora existam dispositivos que podem ser acoplados às cadeirinhas.
Dados citados por especialistas e pela legislação italiana.
- 30°CTemperatura externaCondição considerada no exemplo
- Mais de 40°CInterior em dez minutosCom incidência direta do sol
- Mais de 50°CInterior em uma horaNo mesmo cenário
- Desde 2019Regra na ItáliaAlarme integrado em cadeirinhas
- Até quatro anosIdade cobertaUso de cadeirinha com alerta
Entre os lembretes citados na reportagem estão deixar o celular ou a bolsa de trabalho no banco traseiro e pôr um brinquedo da criança no banco dianteiro. Naami alerta, porém, que nenhuma dessas alternativas elimina totalmente o risco.
Com informações de redir.folha.com.br.
Foto de capa: Pieter Kuiper/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
