Campanha quer substituir expressão associada à vergonha em materiais médicos e no uso cotidiano.
O dicionário holandês Dikke van Dale informou que vai acrescentar vulvalippen à sua próxima atualização on-line como alternativa a “schaamlippen”, termo tradicional usado para os lábios vulvares. A decisão foi anunciada no mês passado e acompanha uma campanha que questiona palavras associadas à vergonha na descrição do corpo feminino.
Segundo ativistas holandesas, a mudança busca adotar uma expressão neutra e anatomicamente mais precisa, além de reduzir o constrangimento de mulheres em consultas e conversas sobre saúde. O termo tradicional pode ser traduzido como “lábios da vergonha” ou “lábios púbicos”, de acordo com a BBC.
Campanha quer mudança em consultórios
Shari Klein, uma das fundadoras da campanha Schaamteloos, defende que palavras influenciam a forma como as pessoas enxergam o próprio corpo. Para ela, a nomenclatura não deveria associar, ainda que de forma indireta, a anatomia feminina à vergonha.
A integrante do grupo feminista holandês Dolle Mina Esther Van der Valk afirmou que a discussão também envolve positividade sexual e enfrentamento à vergonha corporal. O próximo objetivo da mobilização é fazer com que médicos e órgãos públicos adotem vulvalippen em folhetos e atendimentos.
Ton den Boon, editor do Dikke van Dale, disse que a inclusão se justifica porque o vocábulo vem ganhando espaço na mídia, em livros de biologia, materiais médicos e até na medicina veterinária. A palavra será registrada ao lado do termo já tradicional, e não em substituição imediata a ele.
Debate já chegou a outros países europeus
A discussão sobre a linguagem médica e sexual tem precedentes na Europa. Na Alemanha, as jornalistas Gunda Windmüller e Mithu Sanyal lançaram, em 2018, uma petição para trocar “Schamlippen” por “Vulvalippen”; a nova expressão ainda não foi incorporada a um dicionário alemão, mas aparece em conversas, materiais escolares e revistas femininas, segundo Windmüller.
Campanhas e orientações citadas pela reportagem da BBC.
- 2009SuéciaNovo termo para hímen
- 2018AlemanhaPetição por nova nomenclatura
- 2022Reino UnidoOrientação de parteiras
Na Suécia, uma campanha de 2009 levou o dicionário acadêmico a incluir “slidkrans”, expressão equivalente a “coroa vaginal”, como alternativa ao termo associado à virgindade para hímen. A associação sueca de educação sexual RFSU argumentou que a denominação anterior era anatomicamente imprecisa e reforçava mitos sobre virgindade.
No Reino Unido, o debate alcançou termos obstétricos. A obstetra Brooke Vandermolen afirmou que deixou de usar expressões como “colo do útero incompetente” e “falha na progressão”, por considerar que elas podem fazer pacientes se sentirem culpadas por condições médicas.
Próximos passos
A inclusão no dicionário holandês é vista pelas ativistas como um avanço, mas elas pretendem ampliar o uso do novo termo nos serviços de saúde e em documentos oficiais. Especialistas ouvidos pela BBC ponderam que alterações de vocabulário precisam ser estudadas para que sejam compreensíveis e não criem ambiguidade na comunicação médica.
Com informações de bbc.co.uk.
Foto de capa: HandigeHarry/Wikimedia Commons (Public domain)
