Propostas para triagem e diagnóstico aparecem em planos de Lula, Flávio Bolsonaro e Renan Santos, mas especialistas apontam limites para a adoção.
A inteligência artificial aparece nas propostas eleitorais de 2026 para o Sistema Único de Saúde (SUS), com planos que vão do agendamento de consultas ao apoio a diagnósticos e à priorização de pacientes. Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Renan Santos (Missão) defendem, em diferentes formatos, o uso da tecnologia na organização do atendimento.
A possibilidade de substituir a fila por ordem de chegada por uma triagem baseada em risco clínico é um dos pontos em discussão. Especialistas ouvidos pela BBC avaliam que a IA pode ajudar em tarefas específicas, mas alertam que algoritmos não resolvem, por si só, a falta de profissionais, serviços e dados clínicos adequados.
O que preveem os programas
No plano de Flávio Bolsonaro, a IA é apresentada como ferramenta para acelerar o agendamento de consultas e exames e apoiar a prevenção de doenças. A proposta afirma que o sistema poderia identificar pessoas com maior risco de adoecer e convocá-las antes de um agravamento.
Lula propõe ampliar a regulação do acesso à atenção especializada, com mais transparência nas filas e uma fila única digital organizada pelo risco clínico. Renan Santos defende abandonar o modelo cronológico e cita a plataforma DoctorSV, criada pelo governo de El Salvador, como inspiração para integrar laboratórios, farmácias, centros de imagem e triagens.
Limites para mudar a ordem da fila
Para Wagner Meira Jr., professor da UFMG e pesquisador do Centro de Inovação em Inteligência Artificial para Saúde, propostas desse alcance podem ser futuristas e dificilmente seriam executadas em quatro anos de governo. Ele afirma que a tecnologia tem apresentado resultados melhores em tarefas mais delimitadas, como a análise de exames.
O pesquisador ressalta que reorganizar pacientes sem ampliar a capacidade de atendimento tende a ter efeito limitado. Na avaliação dele, antes de alterar prioridades, seria necessário aumentar a disponibilidade de profissionais e serviços.
Dados ainda são obstáculo
Segundo Meira Jr., parte relevante dos dados existentes no SUS é formada por registros administrativos produzidos originalmente para faturamento, e não para uso clínico. Isso limita a capacidade de um algoritmo de definir, em todas as especialidades, quem deve ser atendido primeiro.
O Ministério da Saúde informou que não há atualmente um número nacional consolidado de pessoas à espera de atendimento no SUS. Cirurgias, consultas e exames são geridos por estados e municípios, e nem todos enviavam esses dados ao governo federal.
Próximos passos para os registros
Em 2025, o Ministério publicou uma portaria para exigir o envio periódico e padronizado das filas à Rede Nacional de Dados em Saúde. A medida ainda está em implementação, segundo a pasta.
O Sisreg, sistema usado para marcar consultas e procedimentos, é a fonte disponível hoje para o ministério, mas não é adotado por todos os municípios. Alexandre Chiavegatto Filho, professor da USP, aponta potencial da IA para auxiliar diagnósticos e levar suporte especializado a regiões onde esses profissionais são escassos.
Com informações de bbc.com.
Foto de capa: Jefferson Rudy/Agência Senado/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)
